terça-feira, 10 de agosto de 2010

João Marcos
Fabio Forti
Laura Faia
Rodrigo Augusto
As árvores crescem sós. E a sós florescem.






Começam por ser nada. Pouco a pouco


se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.






Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,


e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.






Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,


e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,


e os frutos dão sementes,


e as sementes preparam novas árvores.






E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.


Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.


Sós.


De dia e de noite.


Sempre sós.






Os animais são outra coisa.


Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,


fazem amor e ódio, e vão à vida


como se nada fosse.






As árvores não.


Solitárias, as árvores,


exauram terra e sol silenciosamente.


Não pensam, não suspiram, não se queixam.






Estendem os braços como se implorassem;


com o vento soltam ais como se suspirassem;


e gemem, mas a queixa não é sua.






Sós, sempre sós.


Nas planícies, nos montes, nas florestas,


a crescer e a florir sem consciência.






Virtude vegetal viver a sós


e entretanto dar flores.